Um dos grandes orgulhos que carrego comigo é ser um dos organizadores do TEDxRio. Esse movimento, que detém a chancela do TED, é fruto de um trabalho iniciado entre eu e mais 2 amigos, Marco Brandão e Marconi Pereira. Nos unimos pelo ano 2008 para espalhar ideias transformadoras. Desde então dedicamos grande esforço para mobilizar pessoas e organizações que acreditam num mundo melhor, para produzir eventos presenciais que invariavelmente se transformam em grandes festas de ideias, saberes e esperança. O último desses eventos aconteceu do dia 12 agosto de 2014. Teve como tema de debate os desafios de crescimento das grandes metrópoles mundiais, entre elas é claro a região metropolitana do Rio de Janeiro.
 

Em todos os nossos eventos sempre tivemos uma extrema preocupaçao conceitual. Procuramos sempre tangenciar o tema central da discussão com novas abordagens, perspectivas periféricas. Sejam para ampliar o espectro qualitativo de olhares sobre a questão, seja como forma de acolher um maior número de vozes dentro da conversa. De fato nossa proposta é bem clara, no sentido de conectar o que chamamos de “as 4 esferas do poder” - a sociedade civil, a iniciativa privada, o poder público e instituições acadêmicas. Para tanto, nossos interesses se dirigem às mais variadas áreas do saber em busca de nomes e mentes brilhantes, reconhecidos ou anônimos.
 

Em se tratando do tema “metrópole”, não demoramos muito a perceber que estas grandes áreas urbanas são de fato gigantescos organismos. Quase seres vivos. São grandes sistemas com engrenagens intimamente conectadas. Onde se resolve um problema, pode-se criar outro. Seus subsistemas altamente dinâmicos não comportam soluções isoladas e merecem uma visão integrada em busca da transformação. Uma metrópole é uma grande teia de vetores que precisa se tensionar e equilibrar constantemente em busca de um pulso rítmico para a harmonia.

Na busca por metáforas que pudessem ilustrar a conexão e dinâmica dos grandes sistemas urbanos, também não foi difícil entender que o conceito de “rede” estava intimamente ligado ao futuro das grandes cidades, ao futuro da própria humanidade enquanto tecido social. Inúmeras manifestações de “redificação” podem hoje ser vislumbradas. Muitas entidades estão perdendo seus pólos centralizadores e conectando as pontas das cadeias produtivas, sem intermediários.

Há muitos estudiosos sobre o assunto nos dias de hoje, inclusive o Brasil detém grandes nomes que enriquecem o entendimento da população leiga, na qual me incluo. A despeito dos grandes nomes nacionais há um grande nome que é reconhecidamente um dos grandes pensadores contemporâneos sobre o poder da rede. Um grande nome associado à criação do movimento cyberpunk na europa, muito além da literatura de ficção. E diria ainda mais, um indivíduo/personagem que não só pensa, mas vive (de verdade!) num modelo de rede distribuída, uma cooperativa de trabalhadores chamada Las Índias, onde as riquezas e valores gerados literalmente se distribuem por seus membros. Estamos falando de David de Ugarte.
 

Por uma grande conjunção de fatores, o que antes foi uma longínqua referência conceitual para enriquecer o TEDxRio Metrópole, acabou se aproximando. Via rede, já que não poderia ser diferente, travamos contato direto com David que, com todo o desprendimento e humildade que lhe é peculiar, aceitou de bom grado viajar ao Brasil e palestrar em nosso evento.
 

David de Ugarte chegou ao Rio de Janeiro na véspera do TEDxRio Metrópole. Encontrei-o no final da manhã num hotel em Copacabana. Confesso que tive um pequeno choque ao vê-lo pessoalmente. Havia construído em minha mente um grande líder ideológico que poderia nos trazer luz sobre novos modelos democráticos. Assim como certamente acontecera a outros grandes nomes da história, idealizei uma figura imponente e poderosa. Meu aprendiado já começava dalí: um homem que pregava a rede como forma de vida não poderia atrair para si mais poder que um indivíduo normal. Sua figura, bem menor e mais frágil do que eu imaginava, trazia a reboque o entendimento de que a energia que emanva estava justamente em se colocar no mesmo patamar que qualquer um de nós.

Após breves cumprimentos, David imediatamente mostrou interesse em conhecer o local do evento.

Na verdade estava ávido por conhecer o Rio de Janeiro em toda sua pluralidade. Seguimos de taxi, portanto, até o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, palco do evento, que àquela altura estava em fase de produção técnica, numa gigantesca confusão de equipamentos e cabos, carregadores e parceiros, tão necessários ao grande dia seguinte. Fiz questão de apresentar pessoalmente todas as instalações do tradicional teatro a David. Havia euforia em seus movimentos. Sua pequena máquina fotográfica pulsava repetidas vezes tentando capturar detalhes esquecidos pelo tempo. Tentava saciar toda sua curiosidade intelectual sobre o Rio, sobre o Theatro, sobre o estilo de vida carioca, sobre a sociedade brasileira, sobre as dinâmicas políticas locais. Uma verdadeira jornada intelectual ali se iniciava. Ao fim da rápida e intensa incursão, a fome se apresentou a nós. Convidei-o a almoçar

despojadamente no, também tradicionalíssimo restaurante carioca, Amarelinho, vizinho ao Theatro Municipal. Convite aceito.
 

David pediu um chopp com um largo sorriso no rosto, consciente de que um chopp no Amarlinho fazia parte de um roteiro carioca autêntico. Fizemos o pedido ao garçon, que nos atendeu ao melhor estilo de simpatia e nobreza.
 

Parecíamos amigos de longa data comemorando algum feito extraordinário. O papo tinha alto grau de intimidade e mostrava-se profundamente promissor. E, embora eu seja um mero designer sem as competências voltadas ao jornalismo, instintivamente me permiti sacar o telefone e pedir autorização para gravar nossa conversa.

O que segue nas próximas linhas é a transcrição adaptada de nossa conversa durante o almoço no Centro do Rio de Janeiro.
 

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Andre Bello:
David me parece bem feliz e está aqui me contando algumas histórias de sua família, das revoluções espanholas e outras coisas muito interessantes. Então eu resolvi registrar esse papo para depois dar um jeito de compartilhar isso de alguma forma. Não sei como, mas tenho certeza que vai ser interessante. David, você está vindo ao TEDxRio Metrópole falar sobre o poder da rede, que representa sua sua obra e seu trabalho intelectual. Como foi o início do seu interesse pelo conceito de rede? Em que momento da sua vida você entendeu que existe uma rede e como ela poderia mudar sistemas de governo?
 

David de Ugarte:
Foi no ano mágico de 1989. Eu tinha 19 anos e tive a sorte de estar no lugar de máxima fricção do mundo e da história naquele momento, que era Berlim. Quando cheguei a Berlim eu ainda era um menino, sendo criado na história do século XX. Toda minha trajetória, e de minha geração esteve alinhada com o século XX e suas perspectivas. Naquele momento, lembro que em 2 semanas tudo mudou! O mais importante da revolução de 89, não foi somente cruzar o muro. A coisa mais incrível para mim naquele momento foram as grandes indústrias e milhares de pessoas discutindo a situação política, discutindo o futuro da Europa! Isso era o mais relevante. Nas ruas, em todo lado, os trabalhadores e pessoas normais faziam parte de uma grande conversa, de um grande debate social! Ao mesmo tempo havia uma grande presença do Chaos Computing Cloud, que era a tradição do mundo hacker alemão.
 

AB: Nesta época, em 1989, já existia essa organização formada?

DU: Sim. O mundo hacker de Berlim no ano de 1989 já era muito ativo.
 

AB: Você já tinha acesso à informática?
 

DU: A minha família na Espanha tinha lojas em zonas francas, que eram isentas de pagamento de impostos. Isso nos dava acesso às novidades tecnológicas que chegavam na região. As inovações chegavam antes para nós e em nossa família sempre valorizamos muito a tecnologia e as novidades. Eu comecei a programar com 11 anos, em 1981, com um console Atari. Minha mãe me disse que seu quisesse mais jogos, deveria programar. Então me deu um cartucho para aprender Basic. De fato, comecei a tentar programar meus próprios jogos. Aos 12 anos chegou o Spectrum, que foi a coisa mais importante da minha vida, pois era uma máquina que realmente permitia que eu programasse meus jogos.
 

AB: Nessa época você já se reunia com amigos para trocar informações sobre tecnologia, jogos e informática?
 

DU: Nos reuníamos nas lojas que vendiam equipamentos. As lojas serviam como conectores do mundo hacker e tudo girava ao redor do Spectrum. Foi um grande transformador social! Mudou a cabeça de todos aqueles que hoje tem entre 40 e 45 anos. Posteriormente quando cheguei a Berlim, eu já estava inserido na cultura Cyber, como muita gente da minha geração.
 

AB: Aos 12 anos você já tinha consciência de que estava inserido em uma rede?
 

DU: Tinha um leve percepção, mas não uma consciência. Só tive essa consciência de fato em Berlim. Foi lá, em 1989 que descobri a internet pela primeira vez...
 

AB: Pelo que sabemos através da literatura oficial, os primórdios da internet teriam sido em ambiente militar e acadêmico. A sua descoberta da internet se deu em alguns desses ambientes?
 

DU:. Não! Descobri a internet num ambiente totalmente marginalizado, num ambiente underground! Era um ambiente muito misturado com o mundo das drogas, por exemplo. Era tudo uma grande mistura onde muito se valorizava as interconexões!
 

AB: Havia um viés político nessa mistura?

DU: Sim, tinha uma frente libertária forte!

AB: David, nossa conversa é extremamente interessante pode navegar por inúmeros assuntos, mas gostaria de voltar à sua consciência de fato sobre a rede em que estava inserido. Como foi esse entendimento?
 

DU: Em Berlim eu percebi a rede em várias dimensões. Primeiro percebi a dimensão social da rede. A rede social era visível! Foi a rede social a responsável pela queda do muro e do estado. Caiu completamente! A Alemanha Oriental, era um estado comunista e é importante lembrar que nos anos 80, um estado comunista era percebido como a coisa mais sólida que existia no planeta. Mas a força da rede estava lá! No dia seguinte à queda do muro, quando não havia mais governo, não havia mais estado, a sociedade inteira era um caos! A cidade inteira era uma gigantesca conversação que se auto-organizava. Era muito, muito impressionante... E ao mesmo tempo havia um grupo hacker que fazia conexões, criando um novo meio de comunicação. Foi nessa ocasião que descobri a internet, que como falei fazia parte do underground...
 

AB: O que eu percebo é que aqui no Brasil muitas pessoas confundem o conceito de rede com a própria internet. Acredito que em 1989, durante a queda do muro de Berlim, a internet não era acessível a todos. Você mesmo diz que era um comportamente bastante marginalizado. Diante da distância, ou mesmo impossibilidade de acesso à internet, como se deram as interconexões entre os nós dessa rede que o levaram a perceber ali uma estrutura palpável? Era uma rede além da internet propriamente dita?
 

DU: Exatamente! A rede de Berlim em 1989 não dependia da internet! O que se cristalizou foi a rede social! Foram as relações entre as pessoas... Quando temos uma grande rede global hoje em dia, ou diante de pequenas redes locais, existe uma malha de conexões relativamente estável. O grande desenho da rede em sí é muito estável. No entanto existem outras entidades da rede que são muito dinâmicas. Por exemplo. existe um conceito, que em português eu poderia chamar de Umbral de Revelia. Dentre a quantidade de gente que você conhece, o Umbral de Revelia é a quantidade de pessoas necessária que mudem para que você também mude. São as pessoas necessárias para que você aceite a mudança. Por exemplo: Se você quiser usar o sistema operacional Linux, mas não conhece ninguém que o use, ninguém poderá te ajudar ou influenciar. É preciso uma massa para influenciar suas ações.
 

AB: Muito interessante, David. Mas me tire uma dúvida. O Umbral de Revelia tem um aspecto quantitativo ou um aspecto qualitativo? Por exemplo, se algum formador de opinião, que influencie minhas escolhas, mudar de opinião eu estaria mais sujeito à mudar de opinião também? Esse seria um aspecto qualitativo se sobrepondo à quantidade?
 

DU: O que passa é: para você mudar, você precisa se sentir seguro nessa mudança. Precisa sentir que não estará sozinho. Pode-se pensar que, se o líder de opinião falar alguma coisa, muitos outros mudarão... Na verdade, os formadores de opinião são uma professia autocumprida... não basta haver um único formador de opinião se não houver uma massa que o acompanhe. É justamente a massa a responsável pela mudança e não o formador de opinião. Portanto acredito que a mudança se trata muito mais de um aspecto quantitativo que qualitativo.
 

Por isso as revoluções começam quando as pessoas se reunem com ideias muito básicas e, quando percebem que são muitos, inicia-se um movimento. No entanto, a estagnação também pode acontecer, quando grande parte de sociedade permanece passiva. Nesse caso, muitos aceitam uma determinada situação, independente da arquitetura da rede.
 

Importante notar que a rede não é formada apenas por conexões. É formada também pela informação dentro de sua arquitetura... Pode acabar existindo uma rede inerte, sem função de transformação. Seria uma rede adormecida, reprimida, ou até uma rede auto-reprimida! Você pode ter uma rede de revolucionários completamente conservadora, se seus membros não falam entre si. O compartilhamento de sentimentos, a informação e o desejo é o que faz a rede dinâmica! Não são somente os nós dinamizadores, mas a expressão da vontade de muitos!
 

Isso é muito interessante porque normalmente se atribue grande importância aos concetores da rede. No entanto os conectores de uma rede são os agentes menos interessantes da rede. Se você é apenas um conector é porque você não é polêmico. Se você não é polêmico você não promove nenhuma mudança, pois você quer estar bem com todo mundo, é amigo de todos. E por justamente por isso é conectado com tudo.
 

AB: Então para uma rede ser efetiva tem que haver uma polarização?
 

DU: Não exatamente uma polarização, mas têm que haver multinarrativas. O silêncio é sempre a pior opção, mas precisamos entender que há diferenças entre diálogo e conversação. O diálogo subentende o consenso completo entre as partes. Existe uma construção de uma coisa nova, mas a partir do mesmo pensamento, mantendo uma zona de conforto. Na conversação existe o conflito, não existe um consenso integral com a outra parte.
 

AB: Aqui no Brasil existe um outro termos além de “diálogo” e “conversação”. Aqui nos também usamos o termo “debate” que talvez tenha maior proximidade com o conceito que você está se referindo, no sentido de contrapor ideias e pensamentos. Não como um “embate”ou como um “combate”, mas sim algum tipo de choque para que haja essa fricção para que a rede assuma aderência. Seria isso?
 

DU: Exatamente. Você precisa disso... ou morre!

AB: Sim, afinal sistemas fechados tendem a desaparecer, certo?
 

DU: Fechar, calar, não discutir, ter medo do conflito, ter medo do que é diferente. Isso faz o sistema morrer. O conflito é tudo! Sem o conflito você não evolue, você não

pode aprender, não pode ver novas coisas. Sem conflito você morre! A morte não é a consequência do conflito, mas muitas vezes a morte é a consequência da ausência do conflito...
 

AB: Perfeito, David... voltando à Alemanha de 1989. Foi nesse momento que você passou a ter consciência da rede, e provavelmente você começou a estimular suas redes em alguma direção. Acredito que você tinha uma mensagem, talvez até conflituosa, para fazer circular nesta rede...
 

DU: A mudança era muito importante em termos históricos. No mundo pré-queda do Muro de Berlim a narrativa comunista era uma narrativa feita por sujeitos históricos que eram como deuses ou heóis com vontade própria, com vontades diferentes das pessoas concretas que teoricamente construiram esses sujeitos históricos. Marx disse muito claramente que a vontade do proletariado não é a vontade dos membros do proletariado. Por outro lado você tinha o conservadorismo que era basicamente nacionalista que também tinha um grande sujeito histórico que era a nação. Ambos os sjeitos históricos, heróis e nação, eram entidades destacadas da massa. Esse era o mundo até aquele momento. Em 1989 começou a nascer outro mundo. Começou a nascer o mundo da rede. Não há outra coisa além dos membros da rede. A rede é o que seus membros fazem com ela. É o resultado da agregação, do que fazemos, de como nos comunicamos e de quem somos. Acaba acontecendo um profundo processo de autoconhecimento.
 

AB: Por uma grande coincidência, o segundo bloco do TEDxRio Metrópole que vai acontecer amanhã, é justamente sobre a questão de identidades. Através da consciência de quem somos como cidade ou sociedade pode-se resgatar o potencial das vocações naturais e verdadeiras essências. Como você falou, sem sujeitos históricos destacados da vontade do grupo.
 

DU: Vejo aspectos muito positivos nas identidades, tradições e a culturas brasileiras , latinas e mediterrâneas... nessas culturas o indivíduo é a relação com o outro, o indivíduo é uma pessoa, é influído e influente.
 

AB: David, qual foi a primeira vez que você escreveu sobre a rede? Como foi a necessidade em transmitir sua carga ideológica? Ou seja, quando você partiu para algum tipo de debate e fez circular sua mensagem? Ou seja, como foi que você começou a usar a rede à favor da rede?
 

DU: Os primeiros textos são de 1991, mas os livros formais começam em 2005, que foi um momento em que o grupo cyberpunk teve uma maturação muito particular, no sentido de desenvolvimento de direitos civis no cyberespaço. Chegamos num ponto crítico na nossa relação em que nos exigimos fazer alguma coisa, pois houve uma grande pressão social. Havia uma orientação para um processo de profissionalização do ativismo. Fomos quase reconhecidos como um ministério da rebelião.

Foi tudo muito próximo da revolução da Ucrânia. Muito próximo também do Movimento 13 de Março na Espanha, quando houve as primeiras manifestações massivas e espontâneas na história da Espanha. Tudo isso gerou muito debate entre os cyberpunks e seu entorno. Engraçado que, em dado momento recebemos um pedido de ativistas argentinos. Estes ativistas conseguiram uma subvensão de uma fundação espanhola e nos solicitou ajuda para articularmos a formação de uma rede para eles.
 

AB: Vocês então começaram a terceirizar o poder da rede?

DU: Exatamente...
 

AB: Isso é legítimo dentro da sua ideologia? O capital financeiro “comprar” uma rede? Isso pode ser perigoso?
 

DU: A única maneira do cyberativismo não ser um instrumento de poder assimétrico é que todos sejam cyberativistas e tenham meios de se articular.
 

AB: Mas o detentor do capital passa a ter o poder sobre as engrenagens da rede. Esse capital poderia levar a rede para um caminho errado?
 

DU: O que interessa de fato é criar vias para maximizar a chegada do conhecimento. O resto se auto-organiza! Não é possível influenciar o que acontece numa rede. É impossível controlar uma rede!
 

AB: Antes que a bateria do meu celular acabe, uma última pergunta, David. Em junho de 2013 aqui no Rio de Janeiro, exatamente neste local onde agora nos encontramos, houve uma grande manifestação popular que reuniu pelo menos 300.000 pessoas. As redes digitais tiveram grande papel para reunir tanta gente, inclusive uma das frases de protesto era “Saímos do Facebook!”. No entanto, em seguida houve um grande e súbito esvaziamento desse movimento. Como você analisa esse clímax de euforia seguido por uma quase paralisia politíca e social?
 

DU: Certamente esse esvaziamento tem relação com Twitter e Facebook. São espaços centralizados, muito controlados, onde a comunicação e os debates em si são rasos. São bons instrumentos para mobilizar, para dizer “Vamos todos discutir na praça!”. Mas levam as pessoas à praça sem o dever de casa feito. As revoluções árabes, por exemplo, tinham uma configuração diferente, com outros espaços de conversação, como blogs e foruns. Estes espaços são realmente menores que Facebook e Twitter, mas abrigam uma discussão muito mais profunda! Nessa situação, quando as pessoas chegam à praça já veêm com o trabalho feito, sabendo exatamente o que querem!

Nas manifestação do Rio de Janeiro e Brasil, a população saiu de casa e foi para a praça num movimento reativo. Saiu para falar “Não!”. Mas para dizer algo mais que “Não!”, é preciso uma discussão social muito grande. Tem que haver uma discussão na rede antes de ir para a rua.
 

AB: Para chegar com o dever de casa pronto...Todos pronto para ação!

DU: Exatamente!
 

AB: Eu vou ter que desligar, porque minha bateria está chegando no final, David. Mas gostaria muito de te agradecer. Não sei exatamente como vou compartilhar este material, mas não poderia perder esta oportunidade. Como disse a você, assim que nos conhecemos, você foi a principal referência em rede usada para a conceituação do TEDxRio Metrópole. Um nome quase inalcançável, mas que, graças à própria rede, estamos agora terminando um almoço juntos. Obrigado, David!
 

DU: Muito obrigado!

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Saímos em seguida do Amarelinho, de volta ao Theatro Municipal. Havia muito trabalho pela frente. Ensaio dos palestrantes e últimos ajustes técnicos e operacionais.
 

Me despedi de David e nos separamos para enfrentarmos nossas agendas de intensas atividades. No dia seguinte ele subiu ao palco, mantendo sua incrível humildade, em trajes simples, diante de uma plateia sedenta de conhecimento.
 

Não tenho dúvida que sua fala de 18 minutos nos inspirou a todos a nos conectar, sairmos da zona de conforto e fazer circular pelas redes, rasas e profundas, as informações e debates que alimentam a tão almejada transformação.

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